70 anos de telenovela no Brasil: um gênero que se reinventa com o tempo

Jonathas Lopes
Jonathas Lopes
Odete Roitman, a icônica vilã da telenovela brasileira Vale Tudo. (Foto: Divulgação).

Neste 2021, o Brasil celebra 70 anos do gênero telenovela, o qual com o decorrer dos anos acabou tornando-se um novo formato para as séries de televisão. Ou seja, a narrativa seriada tão atrativa na Europa e nos Estados Unidos, cedeu espaço na América Latina a uma abordagem com maior enfoque em situações cotidianas.

Assim sendo, é importante relembrar que esse gênero tão conhecido em nosso país tem suas origens no romance de folhetim. Isto é, a novela – o gênero, vem de lá, dos textos publicados em jornais e que eram divididos em capítulos – como livros.

Nesse sentido, não é curioso estranhar o fato dos episódios das telenovelas assumirem um termo aplicado aos livros – capítulos. Ainda assim, o uso de uma expressão ou outra não invalida, e podem ser utilizados como sinônimos. Dessa forma, é importante frisar que “episódio” não é algo exclusivo a seriados americanos e/ou aqueles produzidos para streaming.

A telenovela: um gênero que se reinventa

Apesar de hoje em dia estarmos acostumados com novelas diárias, ou seja, episódios de segunda a sexta-feira, em alguns casos – sábado também (na Rede Globo), a primeira novela do Brasil não foi assim.

Pelo contrário, o folhetim Sua Vida Me Pertence (1951), exibido pela TV Tupi, ia ao ar apenas duas vezes na semana, e ainda assim era considerado uma telenovela. Posto que algumas pessoas insistam em colocar “telenovela” e “série de TV” em lados opostos, e muitas vezes usem o conceito de episódios exibidos semanalmente e diariamente como o diferencial, isso é um ponto interessante.

Dessa maneira, o mais coerente é que a telenovela mantenha-se como um gênero, isto é, um conjunto de elementos inerentes à narrativa. Nesse sentido, a série de TV se inclui como o formato. Então toda ficção dividida em episódios é uma série de televisão, enquanto o enredo é que faz o gênero.

O que seria a telenovela então?

Tendo em vista às raízes no romance de folhetim, esse gênero é caracterizado por seus elementos: romance, situações cotidianas e uma dose de maniqueísmo. Para que essas histórias atingissem o maior número de pessoas, os enredos assumiram uma postura mais simples.

Todavia, com o passar dos anos esse conceito se expandiu e hoje a telenovela atingiu outros segmentos. Em alguns países como o Chile, por exemplo, as emissoras de TV passaram a utilizar o termo “telessérie” para definir suas ficções televisivas.

Por mais que essas mudanças ocasionassem diferentes narrativas na televisão com o tempo, um elemento foi preservado: o melodrama. Posto que qualquer pessoa se identifica com situações emocionais, esse recurso está enraizado na estrutura do folhetim. Por certo, essa talvez seja a principal característica que provoca a atenção do grande público na televisão.

Por exemplo, as produções turcas que tem alavancado muito sucesso na América Latina e Europa usam em excesso de contrastes dramáticos. Assim sendo, seja por enredos recheados de drama ou uma direção focada em capturar a emoção dos personagens, esses folhetins tem conquistado seu espaço.

A telenovela no Brasil

Em terras tupiniquins, a produção desses melodramas partiu de histórias mais simples, focadas no cotidiano, a realismo fantástico e ficção científica. Nesse sentido, podemos citar marcos da dramaturgia nacional como Roque Santeiro, A Indomada, Vale Tudo, A Próxima Vítima, Vamp, dentre outras.

Em seguida, no decorrer dos anos 2000, as narrativas passaram a agregar um novo elemento – o merchandising social. Isto é, não significa que não houve antes, mas a partir de então assume uma abordagem mais explicita. Ao passo que os folhetins de maior destaque nessa perspectiva são os de Manoel Carlos, como Mulheres Apaixonadas (2003), dentre outras.

Por outro lado, o romance policial também passou a tomar conta dos folhetins, dessa forma mesclando-se com o gênero telenovela. Assim sendo, produções como A Regra do Jogo (2015) e Poder Paralelo (2009) são bons exemplos.

Ainda assim, outro destaque da telenovela que tomou conta de uma geração foram as histórias infanto-juvenis. Assim que uma das mais populares é Malhação, que trouxe a renovação do enredo em temporadas como um diferencial.

A nova face do gênero

Na Europa, as séries possuem temporadas devido as férias escolares, que com a chegada do verão, intensificam o êxodo do público de suas residências, e consequentemente ocasiona a perda de audiência. Contudo, na maioria dos países da América Latina – Brasil incluso – os folhetins vão ao ar sem pausa.

Todavia, essa situação está mudando, e em 2021 já tivemos uma segunda temporada para a então novela Verdades Secretas, a qual estreou diretamente no streaming. Outros países como o México, por exemplo, já utilizam essa estratégia como forma de aproveitar o sucesso do produto.

Portanto, mesmo após 7 décadas de folhetins, a cultura da dramaturgia no Brasil ainda está em desenvolvimento. Dessa forma, seja em recursos audiovisuais, ou em narrativas mais complexas, a novela é um gênero em constante descoberta.

Jonathas Lopes

Jonathas Lopes

Amante de teledramaturgia e cinema. Crítico de televisão nas horas vagas, e apaixonado pelo universo Star Wars.

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