Aşk 101 (Love 101) – Um panorama adolescente no final do século XX

Jonathas Lopes
Jonathas Lopes
Love 101 (Foto: Netflix)

Título original: Aşk 101 (Love 101)

Produção: Kerem Çatay

Roteiro: Meriç Acemi e Destan Sedolli

Direção: Ahmet Katıksız

Nº de capítulos: 8 (1ª temporada)

País/Ano: Turquia/2020

“Naquele tempo as pessoas eram punidas por serem diferentes, por isso os diferentes fingiram ser normais para serem aceitos”

(Diálogo de Aşk 101).

A Netflix lançou na última sexta-feira (24), a primeira temporada de Aşk 101 (ou Love 101) , a primeira série turca teen original da plataforma de streaming. A série foi produzida pela empresa Ay Yapım e conta com nomes já conhecidos da dramaturgia turca como Alina Boz, Pınar Deniz, Kaan Urgancıoğlu e Kubilay Aka.

Logo de “Aşk 101”. (Foto: Reprodução/Netflix).
QUAL A HISTÓRIA?

O drama teen é ambientado em Istambul no final dos anos 90 e narra a história de um grupo de jovens que se unem a fim de impedir que uma professora da escola seja transferida, uma vez que a presença dela na escola é a única garantia de não serem expulsos. A partir de então, os jovens armam para que a professora Burcu (Pınar Deniz) e o treinador de basquete Kemal (Kaan Urgancıoğlu) se apaixonem, enquanto isso os jovens se encontram imersos numa aventura recheada de aprendizados.

Na cena Işık, Eda, Sinan, Osman e Kerem. (Foto: Reprodução/Netflix).
MAS VALE A PENA?

Mesmo com uma premissa nada original e apoiada no melodrama clássico, a série é capaz de envolver qualquer telespectador, seja pela simplicidade da história, ou pelo grande trabalho dos roteiristas em compor diálogos interessantes e carregados de momentos reflexivos. Além do drama, a série também possui um arco misterioso, o qual envolve o destino de cada um dos personagens principais.

A série é contada em dois tempos: em 1998 com os jovens com 17 anos e cerca de 20 anos depois, quando Işık (Bade İşçil) – já adulta – tenta reunir toda a equipe novamente. Aparentemente algo deu errado e todos se separaram.

Algo aconteceu e os 5 amigos se separaram. (Foto: Reprodução/Netflix).

Na maior parte do tempo a série se passa em 1998, e no primeiro momento a abertura do conflito que leva os alunos (que até então não eram amigos) a se unirem em busca de um bem comum lembra grandes clássicos do cinema adolescente como “O Clube dos Cinco” de John Hughes. A cena em que os alunos se encontram reunidos em uma sala esperando serem julgados pela classe docente, e externam o motivo pelo qual estão nessa situação é uma referência clara.

A série possui algumas referências a filmes clássicos como “O Clube dos Cinco”. (Foto: Reprodução/Netflix).

A princípio a história não traz nenhuma novidade para o público, e se arma com a fórmula clássica de jovens com personalidades diferentes e bem particulares – tão “esprimida” em filmes adolescentes nas décadas dos anos 80 e 90 – como a garota rebelde (Eda), o garoto solitário (Sinan), o valentão (Kerem), o esperto (Osman) e a aluna exemplar que é representante estudantil (Işık). A presença da professora Burcu (que também é vice-diretora da escola) e o diretor carrasco Necdet – Müfit Kayacan –  lembra o arco principal da novela mexicana Carrussel (Carrossel, no Brasil), fenômeno entre o final dos anos 80 e inicio dos 90, porém se distancia a partir do momento que os personagens são trabalhados sob uma perspectiva mais humana.

Cena de “Aşk 101”. (Foto: Reprodução/Netflix).

As situações, no geral, são clichês, talvez como uma forma de homenagear alguns filmes clássicos do gênero, porém resgatam a simplicidade que tanto faz falta em produções desse segmento (sim, estou falando de Elite). O roteiro não se preocupa em repetir fórmulas já tanto exploradas (e isso é evidente). A maior preocupação é o quão profundo isso pode ser, fato também explícito nos diálogos (que merecem elogios).

Kaan Urgancıoğlu (Emir de Kara Sevda), interpreta o treinador Kemal na série. (Foto: Reprodução/Netflix).
Pınar Deniz vive Burcu, professora e vice-diretora da escola. (Foto: Reprodução/Netflix).

Todavia, algumas situações chamam atenção, como por exemplo, quando Eda (Alina Boz), Kerem (Kubilay Aka) e Osman (Selahattin Paşalı) se reúnem na casa de Sinan (Mert Yazıcıoğlu) para planejarem algo a fim de que Burcu não saia da escola. Sinan começa a folhear um livro e de repente tem a ideia de fazer com que a professora se apaixone. A situação acaba sendo um pouco forçada, ainda que não muito alarmante. O interessante nesse momento é que os quatro jovens percebem que nenhum deles acredita no amor, então como podem fazer o plano para que a professora se apaixone dar certo? É nesse momento que eles percebem que precisam de Işık (İpek Filiz Yazıcı), a nerd romântica da turma (e que guarda sentimentos por Sinan).

A casa de Sinan é uma espécie de QG do grupo. (Foto: Reprodução/Netflix).

A forma como os alunos conduzem o primeiro “encontro” entre os professores é divertida e talvez seja um dos melhores episódios da temporada, em suma parte pelo tom cômico que não soa forçado e pela química incrível entre todos os atores. A cena em que Sinan prende Burcu e Kemal no banheiro é épica.

Burcu e Kemal no show de rock. (Foto: Reprodução/Netflix).

A partir de então, a história se “desata” de vez e entrega um show de ensinamentos. É interessante ver os alunos prevendo a relação entre Burcu e Kemal, partindo da perspectiva social de cada um, enquanto eles também se veem em uma teia de sentimentos cada vez mais emaranhada.

Os alunos tentam juntar Kemal e Burcu a todo custo. (Foto: Reprodução/Netflix).
Kerem externa seus sentimentos para Eda. (Foto: Reprodução/Netflix).
Sinan e Işık confessam o que sentem um pelo outro. (Foto: Reprodução/Netflix).
Relacionamentos bem construídos

É nesse ponto que os roteiristas e a direção acertam em cheio – o dinamismo em trabalhar os relacionamentos dos casais. Não é necessário sequências de sexo quase explícito para instigar a torcida pelos pares românticos da série. Tudo é trabalhado de forma sutil, e ainda que clichê, não se torna cansativo.

Cena de “Aşk 101”. (Foto: Reprodução/Netflix).

Outro destaque é a humanização dos personagens, principalmente Sinan, o qual foi abandonado pelos pais e mora sozinho com o avô, tal fato leva o garoto a não acreditar em ninguém, e dessa forma, ignorar qualquer demonstração de afeto que venham a ter por ele. O garoto vive constantemente se afogando em suas próprias frustrações de ter a atenção dos pais.

Literalmente se afogando. (Foto: Reprodução/Netflix).
Um diálogo necessário

No geral, Aşk 101 reúne vários elementos melodramáticos como conflitos amorosos, intrigas familiares, relações pessoais, autoaceitação e autosabotagem. A série reúne uma reflexão prazerosa sobre diversos temas simples, porém que muitas vezes ficam alheios à nossa atenção. Porém, ainda são exploradas temáticas atuais, como o empoderamento feminino, este bem abordado quando Burcu decide cancelar o casamento com seu noivo por não ser o modelo de vida que ela almeja.

Cena de “Aşk 101”. (Foto: Reprodução).
CONTEXTUALIZANDO A TURQUIA

Um fato curioso da cultura turca, e que é explorado na história de forma engajada, é quando, após cancelar o casamento, Burcu passa a manhã inteira recebendo ligações de familiares e amigos cobrando explicações pelo motivo do cancelamento do casório. Istambul é uma das cidades mais desenvolvidas e “ocidentais” da Turquia, os habitantes costumam fugir um pouco das tradições, já nos povoados a vida de solteiro não é bem vista , por isso muitas famílias procuram maridos e/ou esposas para os filhos. (Apenas para contextualizar a cena, algumas pessoas podem achar exagero do roteiro).

DIREÇÃO ACERTA NA SIMPLICIDADE E TRILHA SONORA

Quem acompanha as novelas (séries turcas) da Turquia já deve ter percebido que as produções possuem uma direção bem caprichada, sempre com viés cinematográfico e o uso de planos bem abertos, além de apostar em tomadas que exalam a beleza da natureza (como o voô dos pombos sob o bósforo).

Cena de “Aşk 101”. (Foto: Reprodução/Netflix).
Cena de “Aşk 101”. (Foto: Reprodução/Netlfix).

Em Aşk 101 não é diferente, os diretores souberam construir bem a composição das cenas, seja com o uso de slow motion na cena em que o laboratório de química é completamente destruído, ou fazendo jus ao roteiro quando o personagem Sinan aparece em cena pela primeira vez (a câmera está deitada, assim como o personagem, e vai levantando conforme ele se levanta).

Cena de “Aşk 101”. (Foto: Reprodução/Netflix).
Os jovens brigam e o laboratório é completamente destruído. (Foto: Reprodução/Netflix).
Cena de “Aşk 101”. (Foto: Reprodução/Netflix).

Todavia, é importante ressaltar que alguns momentos soaram um tanto forçados, como quando Kerem quebra o amplificador na cabeça de um colega ou quando o mesmo personagem observa Eda dançando no show de rock (convenhamos a cena é fofa, mas é bem estranha).

A direção aposta em planos abertos. (Foto: Reprodução/Netflix).

Mas o grande trunfo é, sem dúvidas, a simbologia presente na casa em que a já adulta Işık espera ansiosamente para reunir a equipe, seja nos móveis caindo, as paredes rachando ou na situação de abandono do local, toda a composição é bem representativa. A cena final onde Eda adulta (Rae Varela) se desespera em deixar o local, mesmo com ele desmoronando externa o sentimento de pavor que assola a personagem em torno de ter perdido algo importante – no caso a amizade entre o grupo (?), já que todos se separaram.

Eda e Işık se reencontram 20 anos depois do ensino médio. (Foto: Reprodução).

Vale destacar a belissíma trilha sonora alternando músicas turcas com pop americano e rock. A escolha das músicas é, com certeza, outro acerto como a presença de Should I Stay Or Should I Go de The Clash quando o treinador Kemal surge pela primeira vez, ou ainda Torn de Natalie Imbruglia enquanto Sinan e Işık trocam olhares. Outras músicas que marcam presença é Sirens de Tom Odell, Feeling Good de Nina Simone, Başladım Yürümeye de Mavi Sakal, Aman Yavaş Aheste de Barış Manço, We Are Young de Fun, dentre outras.

Kemal surge ao som de “Should I Stay Or Should I Go” de The Clash. (Foto: Reprodução/Netflix).
E A PRODUÇÃO?

A série está muito bem filmada, com uma fotografia clara e que expõe com maestria a composição de cores de cada cena. A presença de muitas externas também representa um ponto positivo.

Fotografia clara e cores vibrantes. (Foto: Reprodução/Netflix).
ELENCO BEM SINTONIZADO

O time de atores foi muito bem escalado, todos bem talentosos e carismáticos, impossível não se apegar aos personagens. O elenco possui muita sintonia em cena, o que torna as situações mais verossímeis.

Elenco jovem de “Aşk 101”. (Foto: Reprodução).
Kaan Urgancıoğlu e Pınar Deniz esbanjaram química em cena. (Foto: Reprodução/Netflix).
PALAVRA FINAL E EXPECTATIVAS

Aşk 101 teve um primeira temporada bem empolgante, com arcos reciclados, porém interessantes. Não sabemos se é apenas o começo da história (esperemos que sim), mas alguns núcleos parecem ter sido fechados como o relacionamento entre Burcu e Kemal, enquanto outros ficaram muito abertos como as seguintes questões: Por que Işık só enviou três cartas, se além dela o grupo era composto por quatro pessoas? Alguém morreu e Eda teve algo haver? Qual deles está na prisão? Quem estará por trás da porta na cena final ? Muitas perguntas sem respostas, por isso torço para que a série seja renovada e revele essas pendências.

Cena de “Aşk 101”. (Foto: Reprodução).
PONTUAÇÃO DA TEMPORADA: 9.0/10

Deixem recomendações nos comentários, até breve!

Jonathas Lopes

Jonathas Lopes

Amante de teledramaturgia e cinema. Crítico de televisão nas horas vagas, e apaixonado pelo universo Star Wars.

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