“Cadenas de Amargura”: um conjunto de acertos que prendeu pela emoção

Vander Dias
Vander Dias
Cadenas de Amargura (Foto: Televisa)

Por Abel Lameque

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“Cadenas de Amargura” foi uma produção da rede mexicana Televisa e um grande sucesso em sua época. Realizada por Carlos Sotomayor foi exibida entre 7 de janeiro e 26 de abril de 1991, em 80 capítulos, e adquiriu status de clássico com o passar dos anos. Seus criadores foram María del Carmen Peña e José Cuauhtémoc Blanco, conhecidos por “Abismo de Paixão” e “Meu Pecado”. Diana Bracho, Delia Casanova, Daniela Castro, Cynthia Klitbo e Raúl Araiza encabeçaram o elenco que brilhou do primeiro ao último capítulo. O roteiro enxuto, as atuações impecáveis e a trilha sonora marcante explicam a razão de tanto mérito.

Logotipo (Reprodução: Televisa)

 

A HISTÓRIA

Cecília Vizcaíno (Daniela Castro) é uma menina de 8 anos que perde seus pais em um acidente automobilístico e passa a morar com suas tias Evangelina (Diana Bracho) e Natalia (Delia Casanova). A pequena adora a tia Natália, mas teme à Evangelina. Anos se passam, e Cecília se torna uma jovem aplicada nos estudos. Sua melhor amiga é Sofía (Cynthia Klitbo), que a estimula ser como qualquer outra garota, já que Evangelina a priva de sair e se divertir. Certo dia, Sofia e Cecília conhecem a Gerardo (Raúl Araiza),um rapaz nobre e de boa família, com quem Sofia logo inicia um relacionamento.Cecília também começa um romance com um jovem chamado Joaquín (Raúl Magaña), amigo de Gerardo. Quando Evangelina descobre o namoro da sobrinha, surpreende a todos simulando apoio à relação, mas no dia do noivado ela envenena o rapaz, que morre subitamente ao chegar em casa. Em luto, Cecília busca universidades para estudar pintura na capital longe da casa onde se sente prisioneira. Mas Evangelina mente, dizendo-lhe que seu pai não deixou dinheiro para seus estudos.Enquanto isso, Gerardo percebe que está apaixonado por Cecilia. Natalia descobre a verdade sobre a herança de Cecilia, mas Evangelina tenta matá-la empurrando-a de uma escada deixando-a gravemente ferida. É quando Natália cria coragem para revelar a Cecília que não é sua tia, mas, sua verdadeira mãe. Mãe e filha então decidem ir embora e começar uma nova vida longe de Evangelina. Mas a megera, dominada por sua amargura assassina Natalia, acabando novamente com as esperanças de Cecília ser livre. A partir de então, Cecília vai lutar para se livrar dessa cadeia de amargura e disputar o amor de Gerardo com sua melhor amiga.

Evangelina Vizcaíno (Diana Bracho), Cecília Vizcaíno (Daniela Castro) e Natália Vizcaíno (Delia Casanova) foram as protagonistas dessa história (Reprodução: Televisa S.A.)

NADA DE CIRCOS, NEM ESTICAMENTOS

A trama trouxe todos os clichês de um folhetim clássico. A heroína Cecília (Daniela Castro) era uma garota infeliz que não se sentia bem em seu próprio lar, de onde só saia para ir ao colégio ou à igreja acompanhada de suas tias. Cecília queria a liberdade de sentir o que outras garotas de sua idade sentiam sem passar pelos julgamentos de Evangelina. Resultado: o público comprou sua luta na hora.

Mas por que a tia de Cecília era tão amargurada? Somente três personagens sabiam toda história: a própria Evangelina, Natalia e a doce empregada Jovita (Aurora Molina).Os segredos por trás das tias solteironas foram sendo revelados pouco a pouco durante os 80 capítulos previstos. Tudo foi muito bem planejado e por isso não houve fase parada ou absurdos no roteiro.

Alguns recursos folhetinescos deram tão certos que foram repetidos em várias novelas da dupla de autores e se tornaram como uma marca registrada. A história que se passa em uma cidade tranquila; a divisão do enredo em duas fases; a perda de um parente de maneira trágica; ou amizades de infância que perdura por anos. Se esses elementos te fazem recordar Abismo de Paixão, Meu Pecado ou A Cor da Paixão, saiba que não foi mera coincidência, pois elas são obras dos mesmos criadores.

Cecilia Vizcaíno (Daniela Castro) e Gerardo Garza Osuna (Raúl Araiza). (Reprodução: Televisa S.A.)

PERSONAGENS TÃO BONS QUANTO SEUS INTÉRPRETES

Evangelina Vizcaíno era quem centralizava as ações da história. Todo mundo tinha medo dela – inclusive eu. Ela usava a máscara de religiosa inabalável para manipular sua irmã e sua sobrinha. Mas, por dentro, era uma mulher infeliz e atormentada. No final, Evangelina foi se autodestruindo por sua própria amargura.

A escolha de Diana Bracho para viver a personagem não foi aleatória. Ela e o produtor Sotomayor já haviam trabalhado juntos e ela vinha de interpretar protagonistas de êxito em Cuna de Lobos (1986) e Pasión y Poder (1988). Sotomayor sabia do potencial da atriz e ela só comprovou sua capacidade e versatilidade ao se transformar na amargurada vilã Evangelina, que virou referência para as vilãs de outras gerações. Esse papel lhe rendeu o Prêmio TvyNovelas de Melhor Atriz Protagonista, em 1992.

Evangelina Vizcaíno (Diana Bracho). (Reprodução: Televisa S.A.)

Daniela Castro teve aqui sua primeira oportunidade como protagonista e se saiu muito bem. Cecília Vizcaíno foi uma mocinha que derramou um oceano de lágrimas sem ser chata. Apesar da melancolia, era até uma moça frente a seu tempo. Se as outras meninas viviam correndo atrás de um bom partido na trama, Cecília preferia ir para a universidade e ter uma carreira. Quer mocinha mais empoderada que essa? Daniela Castro venceu como Melhor Atriz Juvenil em 1992 por esse papel e foi convocada para viver outras protagonistas nos anos 90.

Cecilia Vizcaíno (Daniela Castro). (Reprodução: Televisa S.A.)

 

Outro personagem que não poderia deixar de citar é Sofía Gastelum (Cynthia Klitbo), um dos mais fascinantes do enredo. Ela começa como a amiga de Cecília e acaba se tornando sua rival por causa de amor de Gerardo. Porém, Sofía marcou mesmo por que era extremamente humana. Colava nas provas, tinha “haters” no colégio, gostava de ouvir música alta e, vez ou outra, aparecia vendo novela. Gente como a gente. Certamente seria aclamada pelos criadores de memes nos dias atuais.

Sofía Gastelum (Cynthia Klitbo). (Reprodução: Televisa S.A.)

Mas Sofía não era uma vilã injustificável. Ela foi abandonada pelo pai ainda criança e por isso desenvolveu uma necessidade extrema de atenção e medo do abandono. Ela era um grande alívio para Cecília e a ajudava a viver um pouco. As duas formavam um ótimo team quando não estavam brigadas. Por esse papel, Cynthia foi premiada como Melhor Atriz Antagonista em 1992, e portas foram abertas para viver outras vilãs de sucesso na Televisa.

Sofía Gastelum (Cynthia Klitbo) e Cecilia Vizcaíno (Daniela Castro). (Reprodução: Televisa S.A.)

Outros destaques foram Natalia (Delia Casanova) e Jovita (Aurora Medina) como os anjos da guarda de Cecília; Elena (Hilda Aguirre), a mãe de Gerardo, como a sogra que ninguém queria ter; a fada sensata Martha (Tina Romero), mãe de Sofía, sempre coerente em seus posicionamentos diante da filha rebelde; e Hermana Angélica (Marcela Páez), uma noviça cujos pais não aceitavam sua vocação e que se tornava aliada de Cecília.

Sofía Gastelum (Cynthia Klitbo) e Elena Osuna de Garza (Hilda Aguirre). (Reprodução: Televisa S.A.)

No elenco jovem brilharam Tiaré Scanda, como Liliana, o eterno ranço de Sofía, que graças a seu bom desempenho tornou-se uma das Muchachitas (1991)no mesmo ano. E se teve uma coisa que não faltou na novela foram galãs: Alexis Ayala arrancou suspiros como o advogado Victor Medina dividido entre Liliana e Sofía; Jorge Salinas debutou aqui com Roberto um dos pretendentes de Cecilia; Raúl Magaña teve uma participação breve,porém, marcante,como o noivo de Cecilia envenenado por Evangelina.

Roberto Herrera (Jorge Salinas). (Reprodução: Televisa S.A.)

 

A TRILHA SONORA FOI UM SHOW À PARTE

A começar pelos temas incidentais, a abertura mostrava paisagens de Guanajato ao som de The Blade Artist de Dwight Bernard Mikkelsen. Os temas de abertura instrumentais eram muito comuns nessa época. Dentre os destaques L’amourexilé e Concerto lamadrague de Richard Clayderman e Donna Lucrezia de Rondó Veneziano marcaram as cenas tristes; Valsa do Imperador de J. Straussto cava nos momentos de delírio de Evangelina e sempre que se ouvia Yucatan de Tangerine Dream o telespectador sabia que viriam momentos de tensão.

Cadenas de Amargura (Foto: Televisa SA)

Além dos temas incidentais, a novela trouxe vários hits que estavam bombando nas rádios da época. Logo no segundo capítulo, ouvimos o sucesso Thriller do Michael Jackson. E se o rei do pop estava na trilha, a rainha Madonna também marcou presença com Promise to try e Like a Prayer embalando as parties do núcleo jovem. Será que no me amas do Luis Miguel, marcou a mudança de fase; e tivemos as baladas românticas de Manuel Mijares Un hombre discreto e Para amarnos más. Esta última, tocou na festa em que Cecilia conheceu Joaquín. Escucha el infinito de Rocío Banquells foi a canção que Sofia escutou no seu toca-fitas portátil – uma ostentação para a época.

Joaquín de la Peña (Raúl Magaña) e Cecilia Vizcaíno (Daniela Castro). (Reprodução: Televisa S.A.)

 

CURIOSIDADES

  • O casamento exibido no último capítulo, gravado em Guanajuato, foi assistido por milhares de fãs da novela e surpreendeu os atores.
  • O final de Evangelina foi uma sugestão de sua intérprete Diana Bracho que não queria um final convencional para a personagem.
  • Em uma cena curiosa, aparece a personagem Sofía (Cynthia Klitbo) assistindo uma novela em seu quarto. A trama se trata de Angeles Blancos (1990), do mesmo produtor, Carlos Sotomayor.
  • Em 2008  a Televisa produziu um remake da obra chamado En Nombre del Amor, pelas mãos de Carlos Moreno Languillo e protagonizado por Leticia Calderón, Victoria Ruffo e Allisson Lozz. A adaptação também fez bastante sucesso e foi adquirida pelo SBT, dublada, porém, nunca exibida.
En Nombre del Amor (2008) remake de Cadenas de Amargura (Foto: Televisa)

 

MAS VALE A PENA?

Armando Gastelum (Juan Carlos Colombo) e Sofía Gastelum (Cynthia Klitbo). (Reprodução: Televisa S.A.)

O sucesso de Cadenas de Amargura foi resultado de um conjunto de acertos: trama coerente, ótimas atuações, trilha sonora marcante e reviravoltas necessárias para manter o interesse do público.Uma boa pedida para os noveleiros mais nostálgicos, que curtem uma pegada mais dramática.

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Vander Dias

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