Erros e acertos da primeira temporada de Sen Çal Kapımı

Jonathas Lopes
Jonathas Lopes
Sen Çal Kapımı, comédia romântica da Fox TV. (Foto: Divulgação).

No último sábado (17/04) foi ao ar pela Fox TV na Turquia o último episódio da primeira temporada de Sen Çal Kapımı. A produção da novela (série turca) decidiu fazer uma pausa devido alguns casos de Covid-19 entre o elenco, e retornam em junho dando continuidade à trama com uma segunda temporada.

Sem dúvidas, Sen Çal Kapımı se converteu numa das comédias românticas turcas mais relevantes desde que a dramaturgia turca ativou o gênero em 2014 com Kiraz Mevsimi. O folhetim protagonizado por Hande Erçel e Kerem Bürsin registrou recordes de interação nas redes sociais, se tornando um fenômeno de repercussão.

Entre altos e baixos, a comédia romântica encerrou sua primeira temporada com o episódio 39. Segue abaixo os principais erros e acertos da primeira parte da novela.

ACERTOS

 1 – Uma história de amor envolvente e bem introduzida

A história de Eda (Hande Erçel)e Serkan (Kerem Bürsin) conquistou a todos desde o primeiro encontro. Apesar da típica narrativa de amor entre uma garota pobre e um cara rico, a trama iniciou com nuances próprios e cativou o público. A construção buscou apoio no clássico clichê “enemies to lovers”, o qual conseguiu render um bom desenvolvimento.

Eda e Serkan, personagens principais de Sen Çal Kapımı. (Foto: Divulgação).

 

Somada a narrativa de amor, os personagens principais foram apresentados para o público com personalidades bem carregadas, fugindo de uma construção vazia. Além disso, durante um primeiro momento, os próprios protagonistas funcionaram como o principal obstáculo para a relação de amor se concretizar, dado que ambos possuíam inseguranças, e numa tentativa de fugir do sentimento, os próprios sabotavam suas emoções.

Mesmo com clichês, a história de amor entre Eda e Serkan não foi desenvolvida a base de uma figura física antagonista para atrapalhar, mas sim movida pelas decisões dos próprios personagens. Ainda que a trama fosse uma comédia, o roteiro se propôs a solidificar as situações a partir das emoções dos personagens, e isso foi o que despertou o encanto pela atração. Foi delicioso acompanhar os olhares apaixonados se desviando, o desequilíbrio pela sensação de perda, aquele abraço intenso, o primeiro beijo e a declaração de amor.

Cena de Sen Çal Kapımı. (Foto: Divulgação).

 

Sen Çal Kapımı apresentou um combo muito positivo ao reunir uma história de amor moderna com toques de sutileza e romantismo que tanto fazem falta junto com a excelente química entre os atores protagonistas.

Hande Erçel e Kerem Bürsin são um verdadeiro show de química em cena. (Foto: Divulgação).
2 – Representatividade feminina

Geralmente em comédias românticas a personagem feminina é ingênua e desastrada, enquanto a figura masculina principal aparece sempre como um príncipe pronto para salvá-la dos problemas. Contudo, a protagonista de Sen Çal Kapımı veio para quebrar este estereótipo e Eda Yıldız é digna do posto de heroína principal.

Eda Yıldız, interpretada por Hande Erçel. (Foto: Divulgação).

 

Eda foi apresentada como uma personagem alegre, divertida, ainda que com traumas difíceis de superar. Além disso, ela é autêntica e original, proprietária de uma personalidade forte, podendo enfrentar qualquer pessoa, até mesmo um robô como Serkan Bolat, o homem que ela acreditou ter destruído seu sonho de se tornar uma arquiteta paisagista.

Eda e Serkan, personagem principais de Sen Çal Kapımı. (Foto: Divulgação).

 

Nesse cenário, a figura da protagonista típica de uma romcom abriu espaço para uma personalidade mais forte e necessária. Seja nas palavras, no vestuário, ou até mesmo no comportamento, Eda é aquela heroína que todos querem torcer.

Parte do elenco feminino de Sen Çal Kapımı. (Foto: Divulgação).

 

Contudo, a trama não se limitou apenas em apresentar a protagonista como uma figura feminina a frente da mentalidade estereotipada, mas entregou outras mulheres com uma presença marcante, fazendo uso de mensagens de união feminina e discussões sobre a inserção feminina no ambiente dos negócios. Infelizmente essa linha de pensamento sofreu com as trocas de roteiristas, e a narrativa feminista cedeu espaço para situações onde duas mulheres se tornam rivais por causa de um homem.

Sana ne?, querida! (Foto: Divulgação).
3 – A trilha sonora

O que seria de uma aventura sem uma trilha sonora para incrementar toda a emoção necessária, não é mesmo? Em Sen Çal Kapımı, as cenas ganham forma com as belíssimas canções. A trilha sonora possui uma mistura de música turca tradicional e canções estrangeiras. Nesse último caso um diferencial, pois dificilmente um folhetim turco abre espaço para músicas internacionais.

Dentre os destaques temos a música de abertura; as canções que embalam as cenas românticas como Gold de Tolan Shawn, Who do you love de Marc Lane e Bones de Amit Ofir, Rinat Arinos e Samuel Shrieve. Outros hits que merecem ser citados: Sen Çal Kapımı de Başak Gümülcinelioğlu, Huyu Suyu de Emir Taha, Başa Sar de Ege Can Sal, Her Şey Seninle Güzel de Eda Baba e Meleklerin Sözü Var de Yalın.

ERROS

1 – Descontinuidade do roteiro

É rotina em série turca trocar o roteirista sempre que a audiência cai, ou o público reclama, mesmo que este seja o criador de toda a história. Em alguns casos, o próprio decide abandonar o barco. Porém, algumas produções sofrem e não tem a sorte de pegar escritores compromissados e esse foi o caso de Sen Çal Kapımı.

Talvez se houvesse a figura de um supervisor de enredo, esse problema não seria tão profundo. Essa função aqui cabe ao showrunner do produto, e infelizmente Asena Bülbüloğlu deixou a desejar nesse sentido.

Cena de Sen Çal Kapımı. (Foto: Divulgação).

 

Embora desde o início a trama soasse com um ritmo lento, era prazeroso acompanhar o desenvolvimento, pois os fatos eram apresentados com calma e os personagens estavam em processo de construção. Todavia, um dos erros da equipe original liderada por Ayşe Üner Kutlu (Erdem Açikgöz, Yesim Citak e Dilek Iyigün) foi não levar em consideração o nível de paciência do público. Porém isso poderia ter sido corrigido com uma conversa entre produtora e escritores, não acham?

Além disso, outro problema nesse aspecto foi a inconsistência do gênero. Afinal, é uma comédia romântica, um drama ou uma dramédia? O fato é que desde o princípio estava claro que o drama viria à tona em algum momento, e este veio da forma mais repentina, por meio do plot que Serkan descobre que seu pai foi o responsável pela morte dos familiares de seu grande amor. A partir de então, o protagonista toma a decisão mais desesperada e abre mão de Eda para não feri-la e passa a viver como um amante solitário. Tudo isso foi muito poético em um primeiro momento, mas logo a trama retornou de uma forma desenfreada para a comédia, e tudo isso em meio a este conflito dramático.

Serkan Bolat, interpretado por Kerem Bürsin. (Foto: Divulgação).

 

Qual o problema disso? A ruptura dos protagonistas que até então tomava uma postura nível Shakespeare perdeu a força e algumas atitudes dos personagens passou a ser irritante, como o fato de Serkan mesmo vendo a dor de Eda em meio ao escuro pelo término, permanecer firme em não revelar o motivo da separação. A ideia não era evitar o sofrimento dela?

Contudo, esse plot não durou muito e logo a verdade veio à tona. A trama começava a se reerguer até que uma nova equipe assumiu o texto. Os novos escritores liderados por Günsu Teker (Fikret Bekler, Kerim Ceylan e Elif Ozsut) já entraram pagando mico e gerando revolta entre o público mais atento.

As gafes mais populares dessa equipe foi o fato de Aydan (Neslihan Yeldan) afirmar que estava casada há 30 anos com Alptekin (Ahmet Mark Somers) sendo que essa era a idade de seu filho mais novo, e a polêmica sequência onde Serkan pede pizza para ele e Balca (İlayda Çevik), sendo que o mesmo não come este tipo de comida (a não ser que esteja com Eda, pois o mesmo afirma que por ela abre mão de seus hábitos saudáveis).

Até um príncipe do mal troxeram para a trama. (Foto: Divulgação)

 

A partir do episódio 31 outra equipe, liderada por Duygu Tankas (Tunus Taşcı, Tufan Bora e Melek Ordu), assumiu o roteiro do folhetim. Essas escritoras deram continuidade ao plot introduzido pela equipe anterior e, infelizmente, não conseguiram consertar a descontinuidade do texto e lá vem mais furo, como o fato de Selin (Bige Önal), a pessoa que mais dizia conhecer Serkan, comprar chocolate para ele. Porém o grande tropeço dessa equipe foi romantizar o sofrimento de Eda e insistir na passividade dos personagens em torno das vilanias de Selin, como Serkan pedindo desculpa para ela após recuperar a memória.

Cena de Sen Çal Kapımı. (Foto: Divulgação).

 

Particulamente, essa equipe errou ao seguir uma direção oposta do que a natureza da trama se propôs desde o início, fazendo uso de situações que feriram o público. Dentre desse contexto, elas introduziram um drama, porém esqueceram de deixar vestígios que explicassem para o público algumas atitudes dos personagens, e isso despertava nos telespectadores a tarefa de criar justificativas para todas as atitudes que fugiam da personalidade dos personagens, mesmo que não houvessem. O resultado: a audiência cansou e metade do público turco abandonou o show.

Após o episódio 37 a equipe liderada por Günsu Teker retomou o comando do roteiro e, até o momento, também serão os responsáveis por escrever os episódios da nova temporada.

2 – Arcos previsíveis e escassos

Sen Çal Kapımı deu largada com um clichê de noivado falso por contrato, e a partir de então fez uso de vários panos de fundos clássicos de uma comédia romântica. Porém um mérito dos roteiristas originais foi que em meio aos clichês, eles conseguiram sua própria originalidade, e assim surpreendiam o público a cada episódio.

Cena de Sen Çal Kapımı. (Foto: Divulgação).

 

Contudo, não se pode atribuir essa mesma façanha as equipes seguintes, as quais desperdiçaram grandes arcos e personagens como a vingança de Semiha (Ayşegül İşsever) contra a família Bolat, ou a peculiaridade de Fifi (Sitare Akbaş).

Ayşegül İşsever interpretou Semiha na trama. (Foto: Divulgação).

 

Günsu e sua equipe provaram ser especialistas em reproduzir opiniões do Twitter e assim recompensaram os fãs com sequências há muito tempo pedidas, mas assim que a fonte secou, eles voltaram ao mais do mesmo, como o esquecível plot da perda de memória de Serkan (que também foi sugerido por uma conta de fã no Twitter).

As decisões seguintes refletiram o quão preguiçosos os roteiristas estavam, pois eles continuavam a reciclar plots, como o retorno de Selin com o único objetivo de ficar entre o casal.

Selin retorna disposta a destruir a felicidade de Eda e Serkan. (Foto: Divulgação).

 

A equipe de Duygu Tankas também provou seu despreparo no texto da trama, pois com a oportunidade de consertar erros da equipe anterior, preferiram continuar e ainda adicionaram algumas situações que fugiam da proposta inicial, como Serkan recuperando a memória através de uma briga em um bar, sendo que Sen Çal Kapımı nunca se propôs a ser uma comédia nível pastelão, ou ainda o desnecessário, felizmente curto, plot da vilã mentido estar grávida do protagonista, uma vez que ambos nunca haviam estado de fato juntos. Nesse último plot, a equipe seguinte fez a lição de casa e consertou a bagunça despachando Selin e fazendo a mesma confessar diante dos protagonistas suas mentiras.

Cena de Sen Çal Kapımı. (Foto: Divulgação).

 

Após uma pausa, Günsu e cia retornaram e novamente provaram que não aprenderam nada, pois no último episódio da temporada voltaram com um plot aleatório de uma mulher desesperada por conseguir a atenção de Serkan e ficar entre ele e Eda.

3 – O esticamento

Não é segredo para ninguém que Sen Çal Kapımı foi lançada como uma série de verão, e como tal, deveria ser um produto curto para apenas ser exibido na pausa da temporada de inverno. Foi nesse sentido que a trama foi montada, com uma história simples, a qual não precisava de muitas voltas para ser resolvida.

Mas, a produtora, o canal de exibição e os próprios fãs não estavam preparados para se despedir da história no episódio 20, o qual foi confirmado há pouco tempo como a marca de episódios originais pensados para a trama pela produtora. Em meio ao sucesso, o folhetim foi esticado e logo os problemas começaram, como quebra de ritmo, desfalque no elenco, dentre outros.

Sen Çal Kapımı, comédia romântica exibida pela Fox TV na Turquia. (Foto: Divulgação).

 

Toda história precisa de um ciclo, ou seja, um início, um meio e, claro, um final. Sen Çal Kapımı tinha esse ciclo definido desde o começo. A trama iniciaria com o plot do contrato de noivado falso, depois embarcaria no drama em torno da morte dos pais da Eda, e por fim encerraria com a chegada da avó de Eda (Semiha). Porém, isso não foi respeitado e a comédia romântica antes promissora, acabou se tornando mais uma série de TV que precisa urgentemente encerrar.

Cena de Sen Çal Kapımı. (Foto: Divulgação).

 

Após o “de volta ao início” proposto pela equipe de Günsu, a trama não voltou a ser o que era antes, e desde então, tem andando em meio a espinhos. A maior prova do desgaste da novela é o abandono do público turco, o qual foi reduzindo drasticamente após o episódio 30.

O que esperar da nova temporada?

Apesar de alguns problemas, o saldo de Sen Çal Kapımı ainda é positivo e isso pode ser aproveitado desde que os escritores e produtores tenham cuidado com as próximas decisões. Agora com a pausa entre uma temporada e outra os roteiristas terão tempo para pensar em situações que resgatem o que conquistou o público da novela. Caso contrário, este crítico de plantão não vai economizar reclamações.

Cena de Sen Çal Kapımı. (Foto: Divulgação).

 

Acredito que está na hora de começarem a pensar em um final definitivo para o show. O planejamento sempre é a melhor saída para um resultado mais positivo. Pensando assim, nada mais justo do que trazer novamente para o comando do texto a equipe original liderada por Ayşe Üner Kutlu. É unânime que a história que todos se apaixonaram foi a que a equipe original introduziu, dessa forma, a decisão mais sensata seria trazer de volta os donos da história para dar um fim digno a toda esta aventura.

Jonathas Lopes

Jonathas Lopes

Amante de teledramaturgia e cinema. Crítico de televisão nas horas vagas, e apaixonado pelo universo Star Wars.

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