Análise: ousada, Yargı encerra temporada com final chocante

Jonathas Lopes
Jonathas Lopes
Crítica da primeira temporada de Yargı (Foto: Divulgação/Kanal D)

No último domingo (30/05) o Kanal D na Turquia levou ao ar o último episódio da primeira temporada do drama Yargı (Segredos de Família). Ao longo de 34 episódios, o enredo escrito por Sema Ergenekon (Kara Para Aşk) conquistou público e encerrou a primeira parte sendo líder isolado de audiência.

Por certo, no ar desde setembro de 2021, a dizi (novela turca) tem encantado telespectadores com os ganchos ao final de cada episódio, além das reviravoltas no enredo. Sendo assim, o desfecho da temporada não poderia ser mais emocionante. Nesse sentido, aquilo que parecia ser o fim, é, na verdade o começo de um novo quebra-cabeças.

Balanço final da temporada

O enredo começa com um assassinato e um suspeito. Em seguida, novas pistas vão abrindo espaço para uma teia de mistérios, os quais, por sua vez, intercalam com várias mentiras e decepções que unem duas famílias.

Porém a trama – que faz bom uso do elemento thriller policial – não se limita a isso. Isto é, ao longo do desenrolar da história, intrigas, conflitos familiares, julgamentos e drama, muito drama cercam os personagens em um labirinto sem saída.

De fato, os grandes momentos de Yargı refletem ainda ao arco da morte de İnci (Ece Yüksel) e, posteriormente, a mente maligna do vilão Engin (Onur Durmaz). Após a morte deste último o enredo é balançado por uma inconstância, ainda que a narrativa soe dinâmica e explosiva. Dessa forma, entra em ação o vilão Yekta (Uğur Polat) – marcado por um sarcasmo impagável e muita dose de corrupção.

Em paralelo a todo esse furacão surge o improvável, mas já esperado – um romance que põe a prova todos os preconceitos e valores de uma sociedade marcada pela hipocrisia. Nesse sentido, Ilgaz (Kaan Urgancıoğlu) e Ceylin (Pınar Deniz) surgem como o respiro para os telespectadores em meio a toda extensão dramática da trama. No entanto, logo o casal cede espaço também para o drama – e é aqui que a caneta de Sema Ergenekon mostra sua habilidade ao desenvolver um relacionamento maduro pautado em diálogos fortes e profundos.

Nesse momento da história o grande embate é entre Ceylin e Yekta. Dessa forma, o vilão usa e abusa da manipulação para condenar a protagonista a qualquer custo. Além disso, o interessante aqui são os embates entre os dois, que embora poucos, sempre são grandiosos.

A reta final

Por fim, chega o arco mais esperado – a revelação sobre a morte de Zafer (Ali Seçkiner Alıcı), ou seja, o pai de Ceylin. E além disso, como a mocinha encararia o fato de seu pai ter sido morto por seu cunhado, enquanto seu sogro acobertou o crime por 3 meses.

Como típico de folhetins, a situação não se resolveria com uma conversa entre os personagens. Dito isso, toda novela que leve o título precisa criar um momento de catarse, isto é, aquela cena revelação onde todos ficam chocados.

Assim sendo, Ceylin – guiada pelo vilão Yekta – descobre tudo da pior maneira possível. Por sua vez, a reação da mocinha não poderia ser diferente. Nesse caso ainda pesa o fato de Ilgaz – o nosso mocinho – ter descoberto tudo horas antes, porém não ter conseguido falar. No entanto, Ceylin releva e decide não abrir mão desse amor, impondo apenas a condição que ele se afaste de sua família.

Todavia, mais uma vez – estamos em uma novela, nada é resolvido tão fácil assim. Dessa forma, logo Ceylin e Ilgaz percebem que nunca poderão ser felizes diante desse abismo que condena as duas famílias. Agora some todo esse arco dramático a separação do casal e a repentina vitória do vilão.

Barriga

A seguir, os últimos episódios da temporada são marcados por um plot envolvendo assassinato de juízes que no fim das contas não agregou nada e só surgiu pra enrolar 3 episódios. Por fim, nos dois últimos capítulos a real verdade sobre a morte de Zafer vem a tona e Ceylin descobre que o assassino de seu pai é outra pessoa. Ademais, ela ainda é deparada com mais armações de Yekta, o que a deixa mais decidida a acabar com o vilão.

O final chocante

Ao final, Yekta é preso numa emboscada – a qual boa parte dos personagens participa. A queda do vilão é lenta de forma proposital, para o público desfrutar de cada angústia no rosto do personagem.

Nos últimos minutos do encerramento da temporada, Ceylin e Ilgaz se reconciliam em uma cena emocionante. Em seguida, somos transportados para uma cerimônia de casamento ao som de Uzunlar de Evdeki Saat e Dinle Beni Bi’ . Porém logo vem a jogada final e finalmente é revelado o grande mistério por trás de flashfowards apresentados ao final dos últimos episódios.

Acontece que Ceylin aparentemente cometeu um crime. Na verdade, ela é acusada de assassinato. No entanto, a revelação que vem a seguir é o que choca: a vítima é Ilgaz Kaya, ou seja, o esposo dela e o protagonista da dizi.

Ilgaz realmente morreu? Ceylin é a assassina?

O melhor de Yargı

As atuações

Com exceção de alguns figurantes de luxo, o elenco principal da série merece todo o reconhecimento por esse projeto. A dinâmica entre Kaan Urgancioğlu e Pınar Deniz dispensa comentários, além da performance individual de cada um que toca na alma do público.

Ainda no elenco merecem destaque as atuações magistrais de Uğur Polat, Onur Durmaz e Mehmet Yılmaz Ak.

Fotografia

Por ser um thriller policial, as cores da produção seguem um estilo opaco em cenas internas na delegacia. Em contrapartida, as cenas externas são mais coloridas a fim de apresentar o contraste entre as locações e a iluminação.

Direção

A estreia de Ali Bilgin (A Agência) no comando de um romance policial está espetacular. O diretor foi buscar inspirações em clássicos do cinema como no longa Mulheres a beira de um ataque de nervos (1988) do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Nesse sentido, as cenas que Ceylin dá voltas pela cela na delegacia lembra os enquadramentos desse filme.

Na reta final ainda houve a adição da diretora Beste Sultan Kasapogullari. Ademais, outros planos como a ideia de superioridade enquanto os personagens caminham pelos corredores do Fórum são incríveis. Some a isso tudo a trilha sonora inédita e alucinante. Um verdadeiro show de arte!

Narrativa engajada

O texto profundo de Sema Ergenekon merece elogios. A escritora consegue tratar temas improváveis devido a censura na TV aberta de forma sutil. Nesse sentido, Yargı tratou certos temas como a violência doméstica, machismo no trabalho, dificuldades trabalhistas, dentre outros.

O pior de Yargı

Mesmo diante de tantos pontos positivos, a série escorrega em desperdiçar alguns personagens. Sendo um produto longo como uma dizi, é necessário ter outros núcleos preenchendo parte dos episódios. Porém ainda sinto falta de mais movimentação nesse sentido.

Um exemplo claro disso ocorre quando a atriz Başak Gümülcinelioğlu é reduzida a gravar apenas cenas de merchandising para o programa. Que feio hein!

Palavra final:

Mesmo com uma primeira temporada extensa, Yargı conseguiu se manter interessante em todos os episódios e seguiu uma linha narrativa coerente e plausível. Um drama para poucos!

Nota: 9,5

Jonathas Lopes

Jonathas Lopes

Amante de teledramaturgia e cinema. Crítico de televisão nas horas vagas, e apaixonado pelo universo Star Wars.

Post Relacionados

Fique conectado!

Assine a nossa newsletter